Vinícius Rodrigues classifica para a final dos 100m quebrando recorde paralímpico

A estreia do brasileiro Vinícius Rodrigues nos Jogos Paralímpicos Tóquio foi com quebra de recorde da competição. Nos 100m T63, classe para amputados de membro inferior acima dos joelhos, o paranaense fez uma semifinal forte passando para a decisão que será disputada nesta segunda-feira, 30, às 8h33, com o tempo de 12s11.

“Fiz uma prova segura onde preciso encaixar a minha largada para realizar o objetivo. Estou feliz com o tempo e sei que posso melhorar. Vou assistir o vídeo, conversar com o meu treinador e descansar para na final a gente encaixar tudo da forma correta”, ressaltou o brasileiro.

Atual recordista mundial na prova, Vinícius acredita que não terá vida fácil pela frente, mas está preparado para fazer uma boa final. “O importante é estar leve, sentindo segurança e isso eu consegui fazer na semifinal passando com a melhor marca. O ciclo foi muito bom e realmente espero ser coroado por tudo o que eu fiz”, completou.Os adversários do brasileiro na prova serão: o russo Anton Prohorov, o sul-africano Michael Puseletso, o australiano Scott Reardon, o dinamarquês D. Wagner, o italiano Alessandro Ossola, o holandês Joel de Jong e o atual campeão mundial, o alemão Léon Schäfer.

Susana Schnarndorf faz a segunda final da carreira paralímpica

Em sua terceira Paralimpíada, a gaúcha Susana Schnarndorf começou a manhã deste sábado (28) disputando a segunda final de sua carreira. Na piscina do Centro Aquático de Tóquio, ela caiu na água para a disputa da final dos 150m medley S4, onde fechou a prova na oitava colocação (3m11s54). 

A chinesa Yu Liu, que já havia batido o recorde mundial da prova (2m39s39) nas eliminatórias ganhou a medalha de ouro com o tempo de 2m41s91. Outra chinesa, Yanfei Zhou, foi prata (2m47s41) e Natália Butkova, do Comitê Paralímpico Russo, o bronze, com 2m53s25. 

Muito emocionada após a final, Susana lamentou não ter repetido o bom desempenho das eliminatórias, quando foi para a decisão com o quinto melhor tempo, de 3m06s54. A melhor marca dela na prova é de 3m05s75.

“Eu tinha nadado melhor a eliminatória, mas dei o melhor de mim. A minha vida é assim, cheia de altos e baixos, e vou tentar nadar melhor nas outras duas provas que tenho em Tóquio”. 

Susana vai competir nos 50m livre S4 na próxima quarta-feira (1) e faz a última prova nos Jogos Paralímpicos de Tóquio na quinta (2), nos 50m costas S4. 

Carreira de sucesso

Aos 53 anos, Susana Schnarndorf começou a carreira nas piscinas com 11 anos. Foi pentacampeã brasileira de 1993 a 1997 e disputou 13 edições do Iron Man, conquistando seis títulos. Em 2007 foi diagnosticada com a Síndrome de Shy-Drager, conhecida como Atrofia de Múltiplos Sistemas (AMS), e três anos depois iniciou a carreira paralímpica. 

“Entrei no paralímpico como S8 em 2010. Nas Paralimpíadas de 2012, em Londres, eu baixei pra S7 e na Rio-2016 era S5 e a dificuldade de nadar era muito maior. A cada dois anos eu passo pela reclassificação, é uma coisa bem estressante, mas eu só tenho plano A, não tenho plano B. Então eu sigo em frente, um dia de cada vez”, diz Susana. 

Além das nove medalhas em Campeonatos Mundiais (seis de ouro, duas de prata e uma de bronze), Susana tem um quarto lugar nos 100m peito e um quinto lugar nos 200m medley na Paralimpíada de Londres, em 2012, e uma medalha de prata na Paralimpíada do Rio, em 2016, no revezamento 4 x 50m livre misto. “Ainda tenho mais duas provas e vou tentar fazer o meu melhor e ganhar de mim mesma. Mas já foi uma honra de estar disputando uma final paralímpica e estou muito feliz de poder estar aqui em Tóquio”, avalia Susana, que só pensa em se despedir das Paralimpíadas nos Jogos de Paris, em 2024.

Gabriel brilha nos 100m borboleta e ganha o 1º ouro para o Brasil nas Paralimpíadas

A estreia do nadador Gabriel Bandeira em Jogos Paralímpicos não poderia ter sido melhor. Na manhã desta quarta-feira, 25, horário do Brasil, o paulistano brilhou no Centro Aquático de Tóquio nos 100m borboleta, classe S14. Com o tempo de 54s76, ele faturou a medalha de ouro e de quebra bateu o recorde paralímpico da prova. 

“Foi uma prova que dei o meu melhor e deu tudo certo. Acabei ficando um período a mais em isolamento no Japão, mas estava me sentindo bem e fiquei muito feliz pela prova e por começar a competição com uma medalha de ouro”, afirmou o atleta que deixou para trás o inglês Reece Dunn e o australiano Bem Hance.

Gabriel Bandeira já tinha mostrado que faria uma prova forte na final ao quebrar o recorde paralímpico ainda nas eliminatórias. Na ocasião, Bandeira passou para a decisão com o segundo melhor tempo com a marca de 56s78.

“Eu nadei as eliminatórias para classificar. Consegui poupar um pouco e na final não pensei duas vezes e fui para cima. Agradeço muito o carinho de todos, da minha família, e ainda tem mais. Importante começar os Jogos Paralímpicos desta forma”, ressaltou o ex-atleta da natação convencional que começou em 2019 a sua história no movimento paralímpico quando cedeu ao seu próprio preconceito e hoje vive um momento único em sua vida.Gabriel Bandeira ainda brigará por medalhas nas provas dos 100m peito e costas; nos 200m livre e medley e no revezamento 4x100m livre. Ele voltará a entrar na piscina na sexta-feira, 27, às 5h28 para competir os 200m livre.

Atleta Susana Schnarndorf desafia os seus limites na terceira Paralimpíada de sua carreira

Cena 1: aos 39 anos, você recebe um diagnóstico médico que lhe dá uma sobrevida de cinco, sete anos. Cena 2: quatorze anos depois do infeliz comunicado, você parte para a disputa da terceira Paralimpíada. É com esse histórico e um espírito guerreiro, driblando o destino e mandando os prognósticos para o ralo das piscinas, que a nadadora gaúcha Susana Schnarndorf, 53 anos, embarcou para os Jogos Paralímpicos de Tóquio, onde almeja aumentar a sua coleção de conquistas.    

“Me tiraram as esperanças muitas vezes, me deram uma sentença de vida. Se não fosse o esporte, eu não estaria mais aqui”, diz Susana, que começou a sentir os primeiros sintomas da doença em 2005, mas só foi diagnosticada com a Síndrome de Shy-Drager, conhecida como Atrofia de Múltiplos Sistemas (AMS), em 2007. A doença degenerativa vai paralisando todos os músculos do corpo, incluindo o pulmão e o coração, o que exige ainda mais dedicação nos treinos e atenção ao aspecto psicológico.

“Todo dia é um dia diferente, vou perdendo a coordenação motora, tenho espasmos. Tem meses que a doença fica estacionada, mas tenho que reaprender a nadar o tempo todo, me preparo muito mentalmente. Tem dia que acordo mais travada, tem dia que falta ar, caio, tive que aprender a lidar com isso. Mas sempre tem uma coisa boa, vou para o treino e o meu técnico, Felipe Silva, me ajuda muito”, conta. 

Susana sempre teve uma ligação forte com a natação. Aos 11 anos ela começou a sua trajetória nas piscinas, fazendo a transição para o triatlo, que virou a grande paixão. Pentacampeã brasileira, de 1993 a 1997, ela queria mais. Partiu para o Iron Man, a super prova havaiana que desafia os atletas a nadar 3,8 km, pedalar 180 km e correr uma maratona. Em 13 edições do Iron Man, conquistou seis títulos. 

O baque. E o recomeço 

Quando a vitalidade da triatleta foi confrontada pela doença, Susana, mãe de três filhos 

(Kaillani, 23 anos; Kaipo, 19, e Maila, 16), sofreu um duro golpe. “Foi bem difícil no início. Passei por todas as fases: a raiva, tive pena de mim, me perguntava porque isso tinha que acontecer comigo”, relembra Susana, que só recuperou o ânimo quando redescobriu o esporte, em 2010. 

Enquanto fazia fisioterapia em uma academia, no Rio de Janeiro, ela conheceu parte da equipe de natação paralímpica brasileira, que treinava no local. Começava ali um novo capítulo na história esportiva vitoriosa da porto-alegrense. “Quando entrei no paralímpico, aprendi a me aceitar como sou. Cada um tem uma história, um problema e o esporte me ajudou demais. Eu estava com depressão, bem mal, e a natação alavancou a minha vida de novo”, constata. 

Na nova modalidade, Susana acumula grandes conquistas. Entre elas, nove medalhas em Campeonatos Mundiais (seis de ouro, duas de prata e uma de bronze), um quarto lugar nos 100m peito e um quinto lugar nos 200m medley na sua primeira Paralimpíada, em Londres 2012, e uma medalha de prata na Paralimpíada do Rio, em 2016, no revezamento 4 x 50m livre misto. 

No Japão, em sua primeira incursão pela Ásia, Susana vai competir para valer nos 150m medley SM4, nos 50m livre S4 e nos 50m costas S4. E incluiu uma “prova quebra gelo” no seu programa, a dos 100m livre S5. “Essa prova não tem na minha classe (S4). Vou nadar na S5, uma classe acima da minha, para quebrar o gelo e entrar no clima da competição. Assim posso ver o processo de entrar para nadar, a sala de controle, ver como tudo funciona”. 

Na sua prova favorita, os 150m medley, em que é a segunda no ranking mundial, Susana quer nadar para o pódio. “Se eu fizer tudo certinho, eu busco a medalha. Vou pra luta. Se a gente tem uma raia, a gente tem uma chance”, aposta. 

Última parada em Tóquio? Quem disse? 

Aos 53 anos, Susana Schnarndorf se acostumou a competir contra atletas bem mais novas. E se muitos acreditavam que, pela idade, Tóquio seria a sua terceira e última Paralimpíada, a nadadora contraria o pensamento comum e planeja a despedida das competições nas Paralimpíadas de Paris, em 2024. 

“Em 2012, quando eu estava treinando na altitude do México, falaram para eu me inscrever 

como voluntária para a Rio-2016, porque eu não teria mais condições de competir, mas eu fui lá e agora vou para o Japão. Quando ponho minha touca e meus óculos, eu compito de igual pra igual com as meninas, em sua maioria na faixa dos 20 anos. Não penso em parar após as Paralimpíadas de Tóquio, Paris vai ser a minha última”, afirma.

Inspirada pelo livro da ex-nadadora norte-americana e medalhista olímpica, Dara Torres, “Age is just a number” (“Idade é Somente um Número”, em tradução livre), Susana conhece bem o caminho e os percalços para se chegar ao sucesso. “O esporte não é uma linha reta, tem vários períodos difíceis, dificuldades, mas não podemos desistir nunca. Dou exemplo, não é fácil pra ninguém. Você pode até cair, mas tem que levantar rápido. O que parece o fim é só um recomeço disfarçado, muitos atletas vencem pela persistência. Se Deus quiser, o avião vai voltar para o Brasil pesado”, brinca ela, sonhando com o peso das medalhas na bagagem. 

Rumo às Paralimpíadas de Tóquio, Luiza Fiorese carrega sonhos na bagagem

O dia 7 de agosto de 2021 ficará marcado para sempre na memória de Luiza Fiorese. Nesta data, à tarde, a capixaba de 24 anos participa, em cerimônia virtual, da colação de grau na faculdade de jornalismo. E, horas depois, embarca com a delegação brasileira de vôlei sentado para o Japão, onde a equipe disputa as Paralimpíadas de Tóquio, de 24 de agosto a 5 de setembro.

A menina de Venda Nova do Imigrante, pequena cidade serrana do Espírito Santo, que sonhava defender o Brasil jogando handebol e de conhecer o país do Sol Nascente, não imaginava que, anos mais tarde, os desejos se tornariam realidade. Não exatamente da forma como projetou, pois para concretizar os sonhos, Luiza teve primeiro que derrotar um câncer. 

Aos 15 anos, depois de sentir dores no joelho, ela teve diagnosticado um osteossarcoma no fêmur esquerdo. “Como eu era muito nova, não senti o baque. Foi bem tranquilo psicologicamente, mas fisicamente foi o desafio mais difícil da minha vida. Passei por um momento de muita fragilidade nas últimas cirurgias, estava cansada com as idas e vindas do hospital”, relembra.

Cinco cirurgias depois, quando substituiu parte dos ossos da perna esquerda por uma endoprótese (prótese interna), Luiza faz da experiência pessoal um combustível para impulsionar a carreira esportiva. Mas ela não pensa apenas em ajudar o Brasil a conquistar uma medalha em Tóquio. Luiza quer mais. 

“Sonho em ter representatividade, em inspirar, ser ídolo. Precisamos de ídolos mais plurais, com deficiência. Quero que as pessoas olhem pra mim e tenham inspiração em sonhar mais alto. O esporte é uma ferramenta que tem o poder de transformar e eu quero amplificar a voz do esporte paralímpico”, crava.

Da luta contra o câncer à descoberta do vôlei sentado

Enfrentar o câncer na adolescência fez Luiza amadurecer mais rápido. Aos 18 anos, ela decidiu deixar o conforto de sua casa no interior capixaba para estudar em Belo Horizonte-MG. “Na minha cidade eu ia ficar conhecida como a menina que teve câncer. Então eu tinha que buscar os meus sonhos mesmo”, afirma.

Comunicativa e apaixonada por esportes, ela não teve dúvida em escolher a carreira que gostaria de seguir: o jornalismo esportivo. “Sempre gostei de me comunicar, era destravada e me encantei com a profissão. Fui pro jornalismo pra viver o mundo do esporte. Eu pensei que se não poderia jogar, queria falar sobre o esporte, contar estórias”. 

Mal sabia ela que a sua própria estória nas quadras não havia terminado, apesar da impossibilidade de voltar a jogar handebol após as cirurgias, já que ficou com os movimentos da perna esquerda comprometido. No final de 2018, durante entrevista em um programa de televisão, a líbero da seleção de vôlei sentado, Gizele Maria, notou a cicatriz na perna de Luiza, que nunca se importou em esconder a marca, usando shorts e saias. Deste contexto surgiu o convite para Luíza conhecer a modalidade.   

“Fico triste porque conheci o esporte paralímpico seis anos depois, por isso brigo e falo muito sobre isso, porque quantas Luizas estão perdidas por aí? Eu não sabia que poderia ser considerada atleta paralímpica. Achava que era só para amputados, para quem não enxerga ou 

que está numa cadeira de rodas. Mas não, abrange muitas pessoas, muitas causas”, reflete. 

O prazer de retornar às quadras

A descoberta do vôlei sentado fez Luiza reviver o prazer de voltar às quadras. “Era como se um vazio dentro de mim tivesse sido arrancado. Quando voltei pra quadra e sentei no chão, eu disse ‘é isso que quero fazer’”, conta. 

Arrebatada pelo novo esporte, Luiza vive intensamente a modalidade desde abril de 2019. No final daquele ano, ela foi convocada pela primeira vez para a seleção brasileira, o que a fez trancar a matrícula na faculdade em Belo Horizonte e se mudar para Goiânia, base da equipe nacional. A meta era fazer parte do time nas Paralimpíadas de Tóquio. 

A boa estatura (1,77m) e o desempenho nos treinos foram fundamentais para que ela carimbasse o passaporte para o Japão, onde quer ajudar a levar o Brasil ao pódio. “O meu saque é uma arma muito boa, principalmente porque as outras equipes não me conhecem. Quem é alta tem vantagem”, diz, destacando ainda o lado emocional na preparação. “É minha primeira competição oficial e num trabalho com a psicóloga, ela falou pra voltarmos ao sentimento infantil, resgatar que a gente tá fazendo o que gosta”. 

Se em quadra Luiza já tem a estratégia para o sucesso brasileiro, fora dela, fala com convicção sobre o caminho que pretende trilhar para fazer o esporte paralímpico ter mais voz e espaço na mídia. “Eu quero conciliar o jornalismo com o esporte paralímpico, que precisa de mais patrocínio. Não quero ocupar espaço por ter um rosto padrão (de beleza). Tenho algo a dizer, quero que as pessoas me ouçam, não só me vejam. Quero que vejam pela forma como eu me comunico, como eu conto a minha estória. O esporte paralímpico tá cheio de coisas legais”. 

A menina resiliente, que revela ter enfrentado o período mais difícil de sua vida entre o final de 2018 e o início de 2019, quando “não podia fraquejar, não podia chorar”, se transformou em uma mulher idealista. E quer ajudar a transformar outras vidas. De pessoas que hoje lutam contra adversários que ela já venceu.  “A sociedade induz a pessoa com deficiência a pensar que ela não pode fazer as coisas. É o capacitismo, a sociedade está acostumada a colocar os nossos limites. O principal é a gente começar a viver com os nossos limites, independente de estar dentro do esporte ou não. O esporte é uma ferramenta para se sentir útil, mas quando vai pro alto rendimento, mexe com sonhos, objetivos. Hoje estou representando uma seleção brasileira. É o empoderamento, de que a gente pode, que a gente consegue”.