Atletas paralímpicos esperam atrair patrocinadores após campanha histórica em Tóquio

Especialista em Marketing Esportivo espera que o mercado invista mais em talentos paralímpicos brasileiros

Depois de brilhar em Tóquio, com a melhor campanha do país na história dos Jogos Paralímpicos, os atletas brasileiros querem mais. Responsáveis pela sétima posição no quadro geral, com 72 medalhas (22 de ouro, 20 de prata e 30 de bronze), eles não se contentam apenas com o reconhecimento dos torcedores e da mídia. Eles querem ser vistos como o que realmente são: atletas da elite, de alto rendimento, que merecem, assim como os olímpicos, virarem garotos ou garotas-propaganda de grandes marcas, estampar revistas, e carregar nos uniformes as logos e nomes de seus patrocinadores.

Se nas arenas, estádios, quadras, campos e piscinas, os atletas vêm consolidando, a cada edição, o Brasil como uma das grandes potências paralímpicas mundiais, fora dos complexos esportivos eles ainda estão, com raras exceções, descartados dos contratos de publicidade e do interesse do mundo corporativo. Um panorama que intriga a empresária Mônica Valentin. Atuando no mercado de marketing e comunicação há mais de 15 anos, a profissional dedica-se, desde 2013, exclusivamente ao esporte paralímpico. E tenta entender a baixa adesão de patrocinadores ao segmento que vem conquistando cada vez mais resultados e visibilidade.

“Se dentro do marketing esportivo você precisa de um produto bom, o esporte paralímpico, pelos próprios números, prova que eles são bons o suficiente para chamar a atenção. Tento entender o porquê esses investimentos não chegam. Ainda estamos batendo no preconceito? Se tem tantas empresas se mobilizando, levantando bandeiras, no que a gente chama de marketing de causa, onde está o investimento, o apoio em si? Às vezes eu fico pensando se é uma fachada. Aonde está de fato o apoio à diversidade?”, questiona.

Dificuldades no caminho em um ciclo mais curto  

Trabalhando com atletas do vôlei sentado, atletismo e natação, entre eles o multicampeão e recordista brasileiro de medalhas paralímpicas, o nadador Daniel Dias, Mônica Valentin salienta um complicador que atinge modalidades menos conhecidas. “Você imagina a dificuldade, enquanto representante de atletas do goalball, por exemplo, para explicar o que é a modalidade, exclusiva do universo paralímpico, para depois apresentar esse atleta e o seu potencial. O desafio é ainda maior”.

Para Mônica, o patrocínio pode fomentar o desenvolvimento do esporte paralímpico nacional como um todo, porque proporciona as condições ideais para a revelação e consolidação de novos talentos e impulsiona a conquista de resultados expressivos dos atletas em menor espaço de tempo.

“A partir do momento em que o atleta tem patrocínio, ele consegue se profissionalizar, se dedicar ao esporte com qualidade, com material de ponta, equipe multidisciplinar e condição de viajar para treinamentos e competições internacionais. Isso tem um impacto grande na carreira e no desenvolvimento do atleta e do alcance que ele pode ter no esporte. Nem todos os atletas têm essas condições à disposição, como têm nas Seleções Brasileiras. Às vezes podemos estar falando de um talento nato, mas sem ajuda ele vai demorar mais tempo para chegar à Seleção ou alcançar resultados expressivos internacionalmente. Esse processo poderia ser acelerado se ele tivesse apoio”, aponta.

Com um ciclo mais curto até os Jogos Paralímpicos de Paris, em 2024, os atletas correm ainda mais contra o tempo para dar conta dos treinamentos e competições que o calendário apertado reserva. Tudo isso sem perder o fôlego na busca de parceiros que garantam o respaldo financeiro necessário para alcançar as melhores marcas e lugares no pódio.

“Este ano que perdemos (em razão da pandemia e o consequente adiamento dos Jogos de Tóquio) era o mais tranquilo, em que os atletas não teriam competições tão fortes e usariam para descansar e se recuperar. Como não vai ter isso, em 2022 já tem Mundial de praticamente todas as modalidades, em 2023 tem o Parapan e 2024, já são os Jogos de Paris. Vai ser um ritmo bem intenso de treinamentos, competições e vai passar muito rápido. Quanto mais cedo os patrocinadores atentarem para isso e abraçarem o esporte e os atletas paralímpicos, melhor ainda será o desempenho do Brasil na França”, diz Mônica.

Luiza Fiorese comemora medalha de bronze de vôlei sentado em Tóquio

“Acho que não tinha jeito melhor de começar no cenário de uma Paralimpíada do que com uma medalha. Mas muito mais do que isso é começar com grandes exemplos na minha frente. Eu, como caloura, me vejo nas próximas Paralimpíadas fazendo o que essas meninas fizeram hoje, o que elas entregaram”. Emocionada, Luiza Fiorese destacou a força da Seleção brasileira feminina de vôlei sentado, que conquistou, no início da manhã deste sábado, a medalha de bronze nas Paralimpíadas de Tóquio. Na decisão, no Complexo Makuhari Messe, em Chiba, o Brasil derrotou o Canadá por 3 sets a 1 (25/15, 24/26, 26/24 e 25/14).

Com a conquista, a seleção repetiu o feito da Rio 2016, quando venceu a Ucrânia na decisão do terceiro lugar. O novo triunfo consolida o Brasil entre as potências femininas no cenário do vôlei sentado mundial. “Eu quero muito continuar esse legado, acho muito importante ter este exemplo (das jogadoras mais experientes). É muito importante para o vôlei sentado brasileiro conquistar essa medalha, conseguir esse feito, essas duas medalhas seguidas”, avaliou Luiza. 

Uma das novatas da seleção, a capixaba de 24 anos estreou em jogos oficiais pela equipe nos Jogos de Tóquio e faz parte do processo de renovação do time brasileiro, que conta com várias remanescentes que ganharam a medalha de bronze no Rio, como Gizele Dias e Nathalie Silva. 

O jogo 

A partida que valeu o segundo bronze paralímpico do vôlei sentado feminino foi menos sofrida do que a da estreia em Tóquio, quando a seleção derrotou o mesmo Canadá por 3 sets a 2, em 2h40 de partida. O nervosismo do jogo inaugural fez o time oscilar e não apresentar a consistência vista nas outras duas partidas na fase de classificação, nas vitórias contra Japão e Itália, e no jogo decisivo deste sábado.

Mais soltas em quadra, as brasileiras impuseram o ritmo no primeiro set, fechando em fáceis 25/15. O Canadá entrou no jogo no segundo set, que seguiu equilibrado até a reta final, quando as canadenses abriram 24/20. Com uma boa sequência de Pamela no saque, o Brasil salvou

quatro set points e empatou em 24/24, mas o Canadá ainda conseguiu fechar em 26/24. 

Terceiro set, o momento crucial do jogo

O terceiro set foi um verdadeiro teste para o equilíbrio emocional da seleção e o momento crucial da partida. Depois de ficar atrás no placar durante quase toda a parcial e ver o Canadá abrir uma vantagem confortável, o Brasil reagiu, empatou e virou o jogo, fechando em 26/24. Era a senha para a medalha de bronze que se aproximava. 

Embaladas, as brasileiras voltaram a comandar a partida no quarto set, não dando chance para as canadenses. Depois de abrir 10/3, a seleção retomou o ritmo imposto no primeiro set, com efetividade no ataque e eficiência defensiva, fazendo vários pontos de bloqueio. Com isso, venceu a parcial com mais tranquilidade, em 25/14, e o duelo por 3 a 1, garantindo o bronze.

Vinícius Rodrigues leva na bagagem aprendizado de Tóquio e mira o ouro em 2024

O pensamento que a vida é um eterno recomeço encaixa perfeitamente na biografia do atleta Vinícius Rodrigues. Nos Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020, o brasileiro ganhou a medalha de prata nos 100m T63 (amputados de membros inferiores), com o tempo de 12s05. Por apenas um centésimo de diferença o paranaense não conquistou o ouro, que ficou com o russo Anton Prokhorov. Sem pensar duas vezes, ele já colocou como meta o primeiro lugar na próxima edição da competição que será em Paris.

“O sonho e toda a visualização que a gente fez foi com a douradinha. Estou na minha primeira Paralimpíada, não posso dizer que estou pleno, mas estou feliz por voltar com a medalha para casa. Esse centésimo de segundo transformou o ouro em prata, mas de grão em grão ele vai virar ouro até porque no Mundial de Dubai foi bronze, agora uma prata, e eu vou buscar o primeiro lugar, o ouro vem!”, afirmou.

Vinícius Rodrigues passou por um momento difícil em sua vida quando sofreu um acidente de moto e precisou amputar a perna. Ele seguia a recuperação no hospital quando foi surpreendido com a visita da velocista Terezinha Guilhermina que fez a ponte com outro campeão paralímpico, o alemão Heinrich Popow. Naquele momento, Vinícius mantinha o otimismo que a sua vida estava recomeçando e de uma forma melhor. Começou a treinar com a prótese e a adaptação foi muito rápida.

“Sempre fui positivo. Acho que Deus colocou essa sementinha de alegria em mim para aguentar as pancadas da vida e tudo é aprendizado. Tóquio me ensinou muito e tenho orgulho de ter escrito mais uma página nesta história. Consegui colocar uma coroa em um trabalho de seis anos e me sinto um verdadeiro campeão”, disse.

Rodrigues vai tirar uns dias de descanso para ficar com a família e logo voltará em uma imersão nas pistas para iniciar o novo ciclo. “Eu estou louco para ouvir o hino nacional e fazer a minha dancinha no pódio. Vamos trabalhar firme porque Paris está logo ali e ano que vem já tem Mundial”, avisou.