Com Mundial de atletismo cancelado, medalhistas paralímpicos se reinventam visando Paris 2024

Nos dias 12 e 13 de março, os principais medalhistas do atletismo do país se encontram na 1ª Fase Nacional do Circuito Loterias Caixa, em São Paulo. O evento marca o início da temporada e representa um novo momento, um marco de esperança após a pandemia. Mas ao mesmo tempo, alguns competidores vivem um dos anos mais desafiadores de suas vidas sem a realização do Mundial de atletismo paralímpico. A competição aconteceria em agosto, no Japão.

“Confesso que estou vivendo um misto de emoções, é uma alegria voltar para a 1ª Fase Nacional do Circuito depois de dois anos.  Mas é um pouco triste pois não teremos Mundial. Sou um cara que nasci para competição então se não tem a maior competição do ano, eu fico triste. Mas a expectativa agora é focar e pegar ritmo nos eventos nacionais. Tenho que fazer marca para liderar o ranking, quero muito me manter no topo. Algo que já estou há cinco anos e quero continuar”, enfatiza Vinícius. “Poder correr em casa é sempre bom, é onde conquistei os meus recordes”, completa o ganhador da medalha de prata nos Jogos de Tóquio (100m rasos – F63).

Já a atleta do lançamento do dardo (F56), Raíssa Machado, estava vivendo um dos melhores momentos de sua vida, em agosto de 2021, quando conquistou a medalha de prata nos Jogos Paralímpicos. Logo depois, ela descobriu que a temporada 2022 seria cheia de desafios. Com o cancelamento do Mundial, a atleta se viu obrigada a buscar motivação e precisou redesenhar os seus planos.

“A minha cabeça fica com um ponto de interrogação. A gente se pergunta como vai ser o ano. Com esse cancelamento, precisei trabalhar o psicológico para focar nos meus objetivos. Pois você precisa estar motivado, não dá para parar. Uma atleta vive de competição. Todo nosso foco, calendário e preparação é baseado nisso. Tive um começo de ano difícil e já estou me sentindo forte, pois enxerguei minhas dificuldades e estou trabalhando nisso”, explica Raíssa. 

Vinícius Rodrigues e Raíssa Machado não medirão esforços para se manterem no topo. Os atletas que também treinam no Centro de Treinamento Paralímpico, referência no Brasil e no mundo, estão se reinventando todos os dias. O encaminhamento dado pelos técnicos têm sido fundamental para o trabalho dos atletas.

“Tenho a ajuda do meu técnico, principalmente no processo de motivação. Sempre conversamos, ele me indicou alguns filmes que me ajudaram muito. Ele reforça as minhas capacidades, me lembra que Paris está logo ali. Vamos usar este período para ajustes, lapidar, realizar testes e no final, eu tenho que competir comigo mesma”, explica Raíssa.

Vinícius explica que ele e seu técnico trabalham com o mesmo pensamento. “Sempre que eu entro na pista eu quero ganhar de mim. Tenho que me reinventar. Tentar bater o Vinicius da última corrida é sempre difícil, pois o Vinícius é muito rápido. Então esse é o pensamento. Sem dúvida, as competições nacionais me ajudarão a alcançar este objetivo.  Após o cancelamento do Mundial deste ano no Japão, tínhamos planos de participar de outra competição, o Mundial da Iwas (Federação Internacional do Esporte para Amputados e Cadeirantes). Mas como o evento está marcado para acontecer na Rússia, não saberemos como vai ficar. Mas não vamos perder o foco. Vamos seguir treinando e estarei pronto fisicamente”, afirma o recordista mundial Vinícius Rodrigues.

A 1ª Fase nacional do Circuito Loterias Caixa acontece no CT Paralímpico, em São Paulo, e contará com 230 atletas.

Mais sobre os atletas paralímpicos:

Raíssa Machado

Nascida em Ibipeba/BA, com uma má formação congênita nos membros inferiores. Ainda na infância, sofreu bullying na escola, e passou por um difícil período de rejeição da própria aparência e deficiência. Teve depressão, conseguiu superar e hoje é muito orgulhosa. É uma das principais atletas do mundo no arremesso de dardo.

Conquistou o bronze no Mundial de Dubai 2019 e o ouro no Parapan de Lima. Nos Jogos de Tóquio, levou a prata e quebrou o recorde das Américas com a marca de 24,39m. A garota que tinha dificuldades em se olhar no espelho, de aceitar a própria aparência, evoluiu, e hoje inspira muitas pessoas. 

Vinícius Rodrigues 

O velocista e ex-militar sofreu um acidente de moto em 2014, com apenas 19 anos de idade, quando perdeu parte da perna. Atualmente é o recordista mundial nos 100m, com a marca de 11s95. Sua estreia em Mundiais lhe rendeu a medalha de bronze em Dubai em 2019. E nos Jogos Paralímpicos de Tóquio conquistou a medalha de prata, ficando apenas a um centésimo do ouro.