Raíssa Machado vai usar CNH contra o preconceito

Atleta brasileira se prepara para guiar carros e deixar de ser maltratada ao pedir carro por aplicativo para ir aos treinos

Recordista mundial de lançamento de dardo na classe F56 – para atletas com comprometimento nos membros inferiores e que lançam sentado -, Raissa Rocha Machado está prestes a alcançar uma nova conquista: a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). A medalhista de prata nos Jogos Paralímpicos de Tóquio está finalizando as aulas de direção e, tal qual os pódios que alcançou nos últimos anos, já se imagina guiando feliz pelas ruas de São Paulo.

A CNH é um sonho de boa parte dos brasileiros que chegam à fase adulta, mas no caso de Raissa também representa um basta a humilhações que sofreu nos últimos anos. Ela mora na Vila Mariana, a poucos quilômetros do Centro de Treinamento Paralímpico, que fica na Rodovia dos Imigrantes. Em geral, a atleta faz esse deslocamento pedindo carro por aplicativo, o que nem sempre para ela é uma experiência agradável.

“Não são todos, mas alguns motoristas tratam a gente como lixo”, conta. “Sempre enfrentei preconceito, seja em São Paulo ou Uberaba (onde mora a família). Mas a gota d’água foi quando um motorista foi me buscar e disse para o segurança do CT: ‘vou ter que levar uma cadeirante por três reais?’.”

Raíssa lembra que a atitude do motorista a deixou muito mal, mas de certa forma serviu como um novo impulso. “Aquele momento foi muito doloroso. Expus no meu Instagram e recebi várias mensagens de outras pessoas com deficiência que haviam passado pelo mesmo. Isso é muito difícil, muito complicado”, diz. “Eu posso correr atrás, o meu problema eu consigo resolver. Mas, e as outras pessoas, como faz?.”

A primeira tentativa de tirar a CNH veio em 2019, um ano após se mudar sozinha para São Paulo, mas ela própria admite que aquele não era o momento ideal. “Tentei tirar a carta, mas eu desisti. Tenho TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade). Depois disso, minha psicóloga começou a me ajudar e isso fez total diferença. Ela me mostrou que basta eu focar e querer”, conta Raíssa, que retomou as aulas de autoescola nos últimos meses.

A paratleta Raíssa Rocha, de 25 anos, faz aula de autoescola para conseguir sua CNH Foto: Werther Santana / Estadão

“Estou gostando muito. Só de imaginar que vou poder viajar, ver minha família, meu amigos… Todos profissionais que me auxiliam são incríveis, os instrutores estão sempre me motivando e falando que sou uma boa condutora”, comemora a medalhista paralímpica.

As aulas são dadas pela autoescola Javarotti, na Vila Mariana, enquanto que uma empresa especializada no mercado PCD, a Évora Isenções, ajuda Raíssa com a assessoria para ela conseguir acesso às isenções de impostos a que tem direito para a aquisição de seu próprio carro. “Eles estão me ajudando a escolher um modelo ideal para mim, mas por enquanto eu estou focada em tirar em carta!”, comenta.

Entre uma aula e outra, Raíssa Rocha também segue treinando para o Gran Prix de atletismo. Organizado pelo Comitê Paralímpico Internacional, a competição acontece entre os dias 15 e 17 deste mês em Marrakech, no Marrocos. Lá, a recordista mundial de lançamento de dardo na classe F56, com 24,8 metros, vai tentar uma nova medalha e, quem sabe, uma nova marca.

Por Marcio Dolzan

Raíssa Machado chega como favorita para disputar o Grand Prix de Marrakesh, no Marrocos

Nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, a atleta conquistou medalha de prata na prova do lançamento do dardo e é a atual recordista em sua classe.

A paratleta Raíssa Machado, nascida em Ibipeba, embarca neste final de semana para a disputa do Grand Prix de Marrakesh, no Marrocos, que acontece de 15 a 17 de setembro. A baiana é recordista mundial da prova do lançamento do dardo, classe F56, e chega como favorita na competição internacional.

Raíssa estabeleceu o novo recorde mundial em sua classe, em março deste ano, em uma competição no Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo. A baiana alcançou a marca de 24m80.

“A responsabilidade aumenta e a minha cobrança em evoluir também, mas acredito que estou no caminho com um passo de cada vez. É a primeira vez que vou para uma competição internacional como recordista então não sei o que dizer, vou atrás da minha evolução como atleta e tudo pode acontecer em uma competição. Estou bem focada e animada”, finaliza a atleta.

O antigo recorde mundial era 24m50 e pertencia à iraniana Hashemiyeh Moavi. A marca foi feita justamente nos Jogos Paralímpicos de Tóquio e rendeu a medalha de ouro à atleta do Irã. Na mesma prova Raissa lançou 24m39 e ficou com a medalha de prata.

Sobre o encontro com as adversárias de Raíssa, o técnico João Paulo Cunha adianta que será uma surpresa. “Ainda não temos noção de quem estará lá. Os GP’s internacionais são sempre surpresas, não temos informação antecipada. Saberemos lá, mas Raíssa segue focada em seus treinos e isso é o mais importante”, comentou o técnico.

A convocação foi anunciada pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) e a atleta embarca dia 10 de setembro. O Grand Prix de atletismo de Marrakesh acontecerá entre os dias 15 a 17 de setembro e o Brasil será representado por 24 atletas.

Raíssa Machado bate recorde mundial no lançamento do dardo e reforça força do feminino no esporte adaptado

O rosto da nova geração do paratletismo, Raíssa Machado, de 25 anos, conquistou a melhor marca do planeta no lançamento do dardo, com a distância de 24,80m, neste fim de semana, na primeira competição nacional da temporada de 2022. O evento aconteceu no CT Paralímpico. A atleta compete na classe F56 (para atletas com comprometimento nos membros inferiores e que lançam sentado).

“É a minha primeira competição do ano, estou muito feliz, e não esperava bater o recorde mundial. Estou na fase dos testes de força e esperava um bom resultado, mas não o recorde. Me surpreendi, mas fui consistente e veio a marca. Estou muito emocionada, espero que as outras competições me surpreendam como esta”, empolga-se Raíssa.

Em agosto de 2021, Raissa conquistou a medalha de prata em Tóquio e bateu o recorde das Américas e distância de 24,39m. Esta marca era a melhor da carreira da atleta. Com a conquista deste domingo, a brasileira derrubou a marca da iraniana Hashemiyeh Motaghian Moavi, antiga detentora do recorde mundial com 24,50m.

O evento marcou o início da temporada e representou um novo momento, um marco 

de esperança após a pandemia.  A 1ª Fase nacional do Circuito Loterias Caixa aconteceu no CT Paralímpico, em São Paulo, e contou com 230 atletas. A atleta também treina no local, referência no Brasil e no mundo em esporte adaptado.

Nascida em Ibipeba/BA, com uma má formação congênita nos membros inferiores. Ainda na infância, sofreu bullying na escola, e passou por um difícil período de rejeição da própria aparência e deficiência. Teve depressão, conseguiu superar e hoje é muito orgulhosa de sua trajetória. Raíssa é uma das principais atletas do mundo no arremesso de dardo.Ela conquistou o bronze no Mundial de Dubai 2019 e o ouro no Parapan de Lima. Nos Jogos de Tóquio, levou a prata e quebrou o recorde das Américas com a marca de 24,39m. A garota que tinha dificuldades em se olhar no espelho, de aceitar a própria aparência, evoluiu, e hoje inspira muitas pessoas. 

Com Mundial de atletismo cancelado, medalhistas paralímpicos se reinventam visando Paris 2024

Nos dias 12 e 13 de março, os principais medalhistas do atletismo do país se encontram na 1ª Fase Nacional do Circuito Loterias Caixa, em São Paulo. O evento marca o início da temporada e representa um novo momento, um marco de esperança após a pandemia. Mas ao mesmo tempo, alguns competidores vivem um dos anos mais desafiadores de suas vidas sem a realização do Mundial de atletismo paralímpico. A competição aconteceria em agosto, no Japão.

“Confesso que estou vivendo um misto de emoções, é uma alegria voltar para a 1ª Fase Nacional do Circuito depois de dois anos.  Mas é um pouco triste pois não teremos Mundial. Sou um cara que nasci para competição então se não tem a maior competição do ano, eu fico triste. Mas a expectativa agora é focar e pegar ritmo nos eventos nacionais. Tenho que fazer marca para liderar o ranking, quero muito me manter no topo. Algo que já estou há cinco anos e quero continuar”, enfatiza Vinícius. “Poder correr em casa é sempre bom, é onde conquistei os meus recordes”, completa o ganhador da medalha de prata nos Jogos de Tóquio (100m rasos – F63).

Já a atleta do lançamento do dardo (F56), Raíssa Machado, estava vivendo um dos melhores momentos de sua vida, em agosto de 2021, quando conquistou a medalha de prata nos Jogos Paralímpicos. Logo depois, ela descobriu que a temporada 2022 seria cheia de desafios. Com o cancelamento do Mundial, a atleta se viu obrigada a buscar motivação e precisou redesenhar os seus planos.

“A minha cabeça fica com um ponto de interrogação. A gente se pergunta como vai ser o ano. Com esse cancelamento, precisei trabalhar o psicológico para focar nos meus objetivos. Pois você precisa estar motivado, não dá para parar. Uma atleta vive de competição. Todo nosso foco, calendário e preparação é baseado nisso. Tive um começo de ano difícil e já estou me sentindo forte, pois enxerguei minhas dificuldades e estou trabalhando nisso”, explica Raíssa. 

Vinícius Rodrigues e Raíssa Machado não medirão esforços para se manterem no topo. Os atletas que também treinam no Centro de Treinamento Paralímpico, referência no Brasil e no mundo, estão se reinventando todos os dias. O encaminhamento dado pelos técnicos têm sido fundamental para o trabalho dos atletas.

“Tenho a ajuda do meu técnico, principalmente no processo de motivação. Sempre conversamos, ele me indicou alguns filmes que me ajudaram muito. Ele reforça as minhas capacidades, me lembra que Paris está logo ali. Vamos usar este período para ajustes, lapidar, realizar testes e no final, eu tenho que competir comigo mesma”, explica Raíssa.

Vinícius explica que ele e seu técnico trabalham com o mesmo pensamento. “Sempre que eu entro na pista eu quero ganhar de mim. Tenho que me reinventar. Tentar bater o Vinicius da última corrida é sempre difícil, pois o Vinícius é muito rápido. Então esse é o pensamento. Sem dúvida, as competições nacionais me ajudarão a alcançar este objetivo.  Após o cancelamento do Mundial deste ano no Japão, tínhamos planos de participar de outra competição, o Mundial da Iwas (Federação Internacional do Esporte para Amputados e Cadeirantes). Mas como o evento está marcado para acontecer na Rússia, não saberemos como vai ficar. Mas não vamos perder o foco. Vamos seguir treinando e estarei pronto fisicamente”, afirma o recordista mundial Vinícius Rodrigues.

A 1ª Fase nacional do Circuito Loterias Caixa acontece no CT Paralímpico, em São Paulo, e contará com 230 atletas.

Mais sobre os atletas paralímpicos:

Raíssa Machado

Nascida em Ibipeba/BA, com uma má formação congênita nos membros inferiores. Ainda na infância, sofreu bullying na escola, e passou por um difícil período de rejeição da própria aparência e deficiência. Teve depressão, conseguiu superar e hoje é muito orgulhosa. É uma das principais atletas do mundo no arremesso de dardo.

Conquistou o bronze no Mundial de Dubai 2019 e o ouro no Parapan de Lima. Nos Jogos de Tóquio, levou a prata e quebrou o recorde das Américas com a marca de 24,39m. A garota que tinha dificuldades em se olhar no espelho, de aceitar a própria aparência, evoluiu, e hoje inspira muitas pessoas. 

Vinícius Rodrigues 

O velocista e ex-militar sofreu um acidente de moto em 2014, com apenas 19 anos de idade, quando perdeu parte da perna. Atualmente é o recordista mundial nos 100m, com a marca de 11s95. Sua estreia em Mundiais lhe rendeu a medalha de bronze em Dubai em 2019. E nos Jogos Paralímpicos de Tóquio conquistou a medalha de prata, ficando apenas a um centésimo do ouro.