Rumo às Paralimpíadas de Tóquio, Luiza Fiorese carrega sonhos na bagagem

Rumo às Paralimpíadas de Tóquio, Luiza Fiorese carrega sonhos na bagagem

Atleta da seleção de vôlei sentado, capixaba mira o pódio e almeja virar referência no esporte paralímpico, dentro e fora das quadras.

por Mônica Valentin | ago 07, 2021 | Luiza Fiorese, Notícia, Notícia Destaque

O dia 7 de agosto de 2021 ficará marcado para sempre na memória de Luiza Fiorese. Nesta data, à tarde, a capixaba de 24 anos participa, em cerimônia virtual, da colação de grau na faculdade de jornalismo. E, horas depois, embarca com a delegação brasileira de vôlei sentado para o Japão, onde a equipe disputa as Paralimpíadas de Tóquio, de 24 de agosto a 5 de setembro.

A menina de Venda Nova do Imigrante, pequena cidade serrana do Espírito Santo, que sonhava defender o Brasil jogando handebol e de conhecer o país do Sol Nascente, não imaginava que, anos mais tarde, os desejos se tornariam realidade. Não exatamente da forma como projetou, pois para concretizar os sonhos, Luiza teve primeiro que derrotar um câncer. 

Aos 15 anos, depois de sentir dores no joelho, ela teve diagnosticado um osteossarcoma no fêmur esquerdo. “Como eu era muito nova, não senti o baque. Foi bem tranquilo psicologicamente, mas fisicamente foi o desafio mais difícil da minha vida. Passei por um momento de muita fragilidade nas últimas cirurgias, estava cansada com as idas e vindas do hospital”, relembra.

Cinco cirurgias depois, quando substituiu parte dos ossos da perna esquerda por uma endoprótese (prótese interna), Luiza faz da experiência pessoal um combustível para impulsionar a carreira esportiva. Mas ela não pensa apenas em ajudar o Brasil a conquistar uma medalha em Tóquio. Luiza quer mais. 

“Sonho em ter representatividade, em inspirar, ser ídolo. Precisamos de ídolos mais plurais, com deficiência. Quero que as pessoas olhem pra mim e tenham inspiração em sonhar mais alto. O esporte é uma ferramenta que tem o poder de transformar e eu quero amplificar a voz do esporte paralímpico”, crava.

Da luta contra o câncer à descoberta do vôlei sentado

Enfrentar o câncer na adolescência fez Luiza amadurecer mais rápido. Aos 18 anos, ela decidiu deixar o conforto de sua casa no interior capixaba para estudar em Belo Horizonte-MG. “Na minha cidade eu ia ficar conhecida como a menina que teve câncer. Então eu tinha que buscar os meus sonhos mesmo”, afirma.

Comunicativa e apaixonada por esportes, ela não teve dúvida em escolher a carreira que gostaria de seguir: o jornalismo esportivo. “Sempre gostei de me comunicar, era destravada e me encantei com a profissão. Fui pro jornalismo pra viver o mundo do esporte. Eu pensei que se não poderia jogar, queria falar sobre o esporte, contar estórias”. 

Mal sabia ela que a sua própria estória nas quadras não havia terminado, apesar da impossibilidade de voltar a jogar handebol após as cirurgias, já que ficou com os movimentos da perna esquerda comprometido. No final de 2018, durante entrevista em um programa de televisão, a líbero da seleção de vôlei sentado, Gizele Maria, notou a cicatriz na perna de Luiza, que nunca se importou em esconder a marca, usando shorts e saias. Deste contexto surgiu o convite para Luíza conhecer a modalidade.   

“Fico triste porque conheci o esporte paralímpico seis anos depois, por isso brigo e falo muito sobre isso, porque quantas Luizas estão perdidas por aí? Eu não sabia que poderia ser considerada atleta paralímpica. Achava que era só para amputados, para quem não enxerga ou 

que está numa cadeira de rodas. Mas não, abrange muitas pessoas, muitas causas”, reflete. 

O prazer de retornar às quadras

A descoberta do vôlei sentado fez Luiza reviver o prazer de voltar às quadras. “Era como se um vazio dentro de mim tivesse sido arrancado. Quando voltei pra quadra e sentei no chão, eu disse ‘é isso que quero fazer’”, conta. 

Arrebatada pelo novo esporte, Luiza vive intensamente a modalidade desde abril de 2019. No final daquele ano, ela foi convocada pela primeira vez para a seleção brasileira, o que a fez trancar a matrícula na faculdade em Belo Horizonte e se mudar para Goiânia, base da equipe nacional. A meta era fazer parte do time nas Paralimpíadas de Tóquio. 

A boa estatura (1,77m) e o desempenho nos treinos foram fundamentais para que ela carimbasse o passaporte para o Japão, onde quer ajudar a levar o Brasil ao pódio. “O meu saque é uma arma muito boa, principalmente porque as outras equipes não me conhecem. Quem é alta tem vantagem”, diz, destacando ainda o lado emocional na preparação. “É minha primeira competição oficial e num trabalho com a psicóloga, ela falou pra voltarmos ao sentimento infantil, resgatar que a gente tá fazendo o que gosta”. 

Se em quadra Luiza já tem a estratégia para o sucesso brasileiro, fora dela, fala com convicção sobre o caminho que pretende trilhar para fazer o esporte paralímpico ter mais voz e espaço na mídia. “Eu quero conciliar o jornalismo com o esporte paralímpico, que precisa de mais patrocínio. Não quero ocupar espaço por ter um rosto padrão (de beleza). Tenho algo a dizer, quero que as pessoas me ouçam, não só me vejam. Quero que vejam pela forma como eu me comunico, como eu conto a minha estória. O esporte paralímpico tá cheio de coisas legais”. 

A menina resiliente, que revela ter enfrentado o período mais difícil de sua vida entre o final de 2018 e o início de 2019, quando “não podia fraquejar, não podia chorar”, se transformou em uma mulher idealista. E quer ajudar a transformar outras vidas. De pessoas que hoje lutam contra adversários que ela já venceu.  “A sociedade induz a pessoa com deficiência a pensar que ela não pode fazer as coisas. É o capacitismo, a sociedade está acostumada a colocar os nossos limites. O principal é a gente começar a viver com os nossos limites, independente de estar dentro do esporte ou não. O esporte é uma ferramenta para se sentir útil, mas quando vai pro alto rendimento, mexe com sonhos, objetivos. Hoje estou representando uma seleção brasileira. É o empoderamento, de que a gente pode, que a gente consegue”.